Sunday, March 30, 2014

Voltar atrás para seguir em frente: Sobre a Cultura do Estupro

O capítulo 22 do Deuterônimo, livro do velho testamento e também da Torá, trata,na sua metade, de regras referente ao trato de animais domésticos. A segunda metade do capítulo trata do que chamaríamosem termos contemporâneos de "cultura do estupro". Ei-los:

13 Se um homem tomar uma mulher por esposa, e, tendo coabitado com ela, vier a desprezá-la,
14 e lhe atribuir coisas escandalosas, e contra ela divulgar má fama, dizendo: Tomei esta mulher e, quando me cheguei a ela, não achei nela os sinais da virgindade;
15 então o pai e a mãe da moça tomarão os sinais da virgindade da moça, e os levarão aos anciãos da cidade, ã porta;
16 e o pai da moça dirá aos anciãos: Eu dei minha filha por mulher a este homem, e agora ele a despreza,
17 e eis que lhe atribuiu coisas escandalosas, dizendo: Não achei na tua filha os sinais da virgindade; porém eis aqui os sinais da virgindade de minha filha. E eles estenderão a roupa diante dos anciãos da cidade.
18 Então os anciãos daquela cidade, tomando o homem, o castigarão,
19 e, multando-o em cem siclos de prata, os darão ao pai da moça, porquanto divulgou má fama sobre uma virgem de Israel. Ela ficará sendo sua mulher, e ele por todos os seus dias não poderá repudiá-la.
20 Se, porém, esta acusação for confirmada, não se achando na moça os sinais da virgindade,
21 levarão a moça ã porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão até que morra; porque fez loucura em Israel, prostiruindo-se na casa de seu pai. Assim exterminarás o mal do meio de ti.
22 Se um homem for encontrado deitado com mulher que tenha marido, morrerão ambos, o homem que se tiver deitado com a mulher, e a mulher. Assim exterminarás o mal de Israel.
23 Se houver moça virgem desposada e um homem a achar na cidade, e se deitar com ela,
24 trareis ambos ã porta daquela cidade, e os apedrejareis até que morram: a moça, porquanto não gritou na cidade, e o homem, porquanto humilhou a mulher do seu próximo. Assim exterminarás o mal do meio de ti.
25 Mas se for no campo que o homem achar a moça que é desposada, e o homem a forçar, e se deitar com ela, morrerá somente o homem que se deitou com ela;
26 porém, ã moça não farás nada. Não há na moça pecado digno de morte; porque, como no caso de um homem que se levanta contra o seu próximo e lhe tira a vida, assim é este caso;
27 pois ele a achou no campo; a moça desposada gritou, mas não houve quem a livrasse. em juizo, entre sangue
28 Se um homem achar uma moça virgem não desposada e, pegando nela, deitar-se com ela, e forem apanhados,
29 o homem que se deitou com a moça dará ao pai dela cinqüenta siclos de prata, e porquanto a humilhou, ela ficará sendo sua mulher; não a poderá repudiar por todos os seus dias.
30 Nenhum homem tomará a mulher de seu pai, e não levantará a cobertura de seu pai.

Essas são as velhas regras do patriarcado, regras que estão na base das relações sexuais entre homens e mulheres no cristianismo e no judaísmo. Elas dividem as vítimas de violência sexual em dois grupos bem contrastados: as mulheres dignas [virgens de Israel] e aquelas indignas. Dignos de nota também a vontade de distinção entre a mulher que grita por socorro e a que supostamente não o faz e a interpolação financeira nos vários casos. Escrevi sobre o assunto lendo três contos de Faulkner, Rulfo e Rosa, contos que me chamaram a atenção pela existência neles de mulheres que chamei [citando a Rosa] de "Órfãs de Dinheiro". Leiam esse trecho acima, meditem e pensem no desafio que é desmontar esse ferrolho na sociedade ocidental - principalmente quando moralistas e vendedores de sacanagem vivem reforçando o dito ferrolho. Leiam, quem sabe, os três contos ["Esses Lopes", "Wash" e "Es que somos muy pobres"] para entender o que é colocar a inteligência crítica da narrativa de ficção a favor deste desmonte. E sigamos em frente.

4 comments:

Anonymous said...

Essas velhas regras estão sendo lidas com um montão de anacronismos. Não há, em nenhum momento, incentivo ao estupro da suposta moça indigna ou de qualquer outra. Aliás, o que se tem é pena de morte para o homem que violentar uma moça. Não vejo relação entre a bagunça atual e a estrutura patriarcal bíblica porque, embora fosse excessivamente dura em vários aspectos, a lei mosaica primava pela organização. E organização é o que não se vê no mundo atual onde cada um usa o argumento que bem entende para continuar fazendo aquilo que simplesmente quer fazer.
(tata)

Paulodaluzmoreira said...

Olha, Tata, as velhas regras qualificam casos diferentes de estupro baseados no status da mulher [casada ou solteira, virgem ou não] e na situação particular do encontro entre o homem e a mulher em questão. O homem que violenta a moça não é sempre condenado à morte [e há também uma presença significativa de compensações financeiras devidas aos pais] e os atenuantes no caso tem a ver justamente com a situação da mulher e a circunstância do encontro. Com o trecho do Deuterônimo, significativamente colocado no mesmo capítulo que trata de questões relacionadas ao trato de animais domésticos, eu quis:
1. Chamar a atenção de que esse não é absolutamente um problema especificamente brasileiro - há muitos estudos sobre essa tal cultura do estupro nos EUA, por exemplo.
2. Lembrar que a tal resposta na tal pesquisa tem base nessa diferenciação entre "tipos" de mulheres, que está lá na base da cultura ocidental.
3. Lembrar que o aumento significativo do fundamentalismo religioso [a leitura ao pé da letra dos textos bíblicos] reforça um anacronismo tremendo ao querer reproduzir literalmente as normas do texto bíblico. Isso, sim, trata-se de anacronismo!

Anonymous said...

Sobre o ponto 3, concordo. Sobre os outros, tem alguma coisa que eu ainda preciso entender direitinho antes de falar. rs... Amanhã, quando eu estiver ACORDADA, comentarei então.
(tata)

Anonymous said...

Relendo o que está de fato escrito: - não existe diferença entre a moça que grita e a que não grita porque isto simplesmente não é mencionado. O que se tem é a ideia de que qualquer moça nesta situação, estando no campo e sendo pega por um homem que a despose a força, gritará.
- se homem e mulher forem pegos, segundo o que está no texto, eles serão obrigados a se casar. mas neste caso, não existe a ideia de que alguém tenha sido forçado a alguma coisa.
- as punições severas dizem respeito à traição e ao estupro.
Quando eu digo que "as velhas regras estão sendo lidas com um montão de anacronismos", estou querendo dizer o mesmo que você no ponto 3 da resposta.
As pessoas estão se radicalizando e isto não é de hoje. Tenho um palpite: talvez fosse bastante proveitoso estudar o efeito da bagunça e da desesperança no cérebro humano. Religiões e textos sagrados, no momento, são só mais uma pedra que estava a volta de quem procurava algo para arremessar. Pronto, acho que agora me expressei com clareza (ou não).
(tata)