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Recordar é viver: Arautos da Censura

Sentença da censura sobre o livro Feliz ano novo ”: "em quase sua totalidade, personagens portadores de complexos, vícios e taras, com o objetivo de enfocar a face obscura da sociedade na prática da delinquência, suborno, latrocínio e homicídio, sem qualquer referência a sanção, utilizando linguagem bastante popular e onde a pornografia foi largamente empregada, com rápidas alusões desmerecedoras aos responsáveis pelos destinos do Brasil e ao trabalho censório". Declaração do senador Dinarte Mariz da ARENA-RN aos jornalistas após reunião com o ministro da justiça da época, Armando Falcão: “Suspender o livro ‘Feliz ano novo’ foi pouco. Quem escreveu aquilo deveria estar na cadeia e quem lhe deu guarida também. Não consegui ler nem uma página. Bastaram meia dúzia de palavras. É uma coisa tão baixa que o público nem devia tomar conhecimento.” Perguntado se um futuro livro de memórias que prometia escrever poderia ser censurado, Dinarte Mariz não se fez de r...

Recordar é viver: O jornal da Ditabranda começa a tirar o corpo fora

Com o regime militar caducando com as Diretas Já em 1984, a FSP, já com outra direção editorial, dedicou várias páginas ao regime que comemorava 20 anos e começou a reescrever a sua própria história, dizendo que “a reação aos excessos revolucionários começou simultaneamente em dois grandes jornais: o ‘Correio da Manhã’, do Rio e a ‘Folha’ de São Paulo.” Acho que os posts anteriores dispensam maiores comentários sobre essa impressionante cara-de-pau, ainda cuidadosamente acolchoada numa reportagem no meio do caderno. Note apenas, caro leitor, o adjetivo “revolucionário”: seria ainda um deslize ou talvez um sinal de continuidade entre as duas folhas? Não é minha intenção fazer o papel de dedo-duro, mas me espanta o desaparecimento dos defensores do regime militar. Não dos recalcitrantes que ainda querem comemorar a coisa, mas dos arrependidos, que pularam do barco em algum ponto depois de 64, a maioria bem depois de 64, quando ser oposição já não era tão perigoso e o tal "mil...

Recordar é viver: O jornal da Ditabranda nos anos de chumbo

Assim recebeu a Folha de São Paulo, em editorial do dia 30 de outubro de 1969, a chegada à presidência de Emílio Garrastazu Médici: “Não há exagero em afirmar que o novo governo se instala num clima de simpática expectativa e saudável confiança.” “… o novo presidente deu ao país mais uma razão de confiar em que prosseguiremos no bom caminho percorrido até aqui e que nos há de conduzir a dias ainda melhores”

Recordar é viver: O jornal da Ditabranda nos anos de chumbo

Editorial da Folha sobre o AI-5 culpando a oposição de agitadores, "hábeis fomentadores": “Se culpa e responsabilidade há, é o radicalismo que desde há alguns meses começou a aprofundar-se entre nós, gerando tensões e intranquilidades. Em outro contexto, provavelmente a decisão da câmara dos Deputados sobre o caso Marcio não teria tido maiores consequências. Mas, ligadas a outras crises – algumas habilmente fomentadas por agitadores, interessados apenas em criar problemas para a nação – acabou sendo o acontecimento que precipitous a situação em que hoje nos encontramos.” “Horas Difíceis”, Editorial da FSP, 14 de dezembro de 1968.

Recordar é viver: O jornal da Ditabranda nos anos de chumbo

Manchete de primeira página da Folha de São Paulo ao noticiar que a repressão do regime militar havia descoberto o congresso de Ibiúna da UNE [então proibida de funcionar]. "QUASE TODOS FORAM SOLTOS Ontem, a Policia soltou todas as moças paulistas e também 106 rapazes. Ficaram ainda presos, Segundo tais númeors – fornecidos pelas fonts oficiais – 30 rapazes de S. Paulo. Manchete principal da FSP, 18 de outubro de 1968.

Recordar é viver: O jornal da Ditadura

“Ressurge a Democracia” "Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições. Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada." Editorial de O Globo, 2 de abril de 1964

Recordar é viver: O jornal da Ditabranda

“Não houve rebelião contra a lei, mas uma tomada de posição em favor da lei. Na verdade, as Forças Armadas destinam-se a defender a pátria e garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem. Ora, a pátria estava ameaçada pelo comunismo, que o povo repele. Os poderes constitucionais haviam sido feridos de morte, tantos os desrespeitos à Contituição, à lei, ao regime federativo. E a ordem periclitava com a quebra de disciplina e hierarquia nas Forças Armadas.” “Assim se deve enxergar o movimento que empolgou o país. Representa, fora de dúvida, um momento dramático de nossa vida, que felizmente termina sem derramamento de sangue. E termina com a vitória do espirito de legalidade, reestabelecido o primado da Constituição e do Direito. Resta-nos esperar que os focos de resistência esboçados em raros pontos logo se desfaçam, para que a família brasileira reencontre no menor prazo possível a paz a que tanto aspirava o povo, livre da pregação e da ação dos comunistas que se hav...

Recordar é viver: A revolução dos caranguejos

"De todas as violências e ilegalidades postas em prática pela quartelada de 1o de abril, a mais repugnante, a mais abjeta é a oficialização e santificação da delação. [...] No governo da Guanabara, em outros governos, no IAPC, nos demais institutos, na cidade e no País a delação foi guindada a mérito, com direito a recompensa." Trecho do primeiro parágrafo de "Judas - o dedo-duro", crônica de Carlos Heitor Cony do dia 15 de maio de 1964.

A vida além do cemitério

O melhor música feita no Brasil hoje em dia não passa no Fantástico nem na novela, não aparece no segundo caderno nem na Folha nem n’O Globo e não toca em radio nenhuma. Exemplo: “Gangorra” de Maurício Ribeiro e Zéfere, cantada por Juliana Perdigão e Rômulo Fróes no Álbum Desconhecido da Juliana, que aliás já compareceu aqui no blogue com a sensacional banda Graveola e o lixo polifônico : Eis a Letra: Por isso é que quando se trata de ouvir música, não perco meu tempo nem com Fantástico nem com novela, nem com segundo caderno de Folha nem O Globo, nem com rádio nenhuma. São cemitérios para mim. E para você?

Saquaremas e Luzias

[Legenda: "Então a gente combina assim: você fica com o senador e eu fico com o ministro."] Um certo sábio disse no século XIX que no Brasil não havia nada mais parecido com um conservador que um liberal no poder. No século XXI a sofisticação desse sistema chegou a tal ponto que o Lobão senador do PFL de ontem é o Lobão ministro do PMDB de hoje. Enquanto as diferenças políticas se cancelam e se fabricam ao sabor das conveniências, tudo acaba ficando mais ou menos no ponto em que sempre esteve e a roda da história parece mais um cachorro correndo atrás do próprio rabo – seja com “pibão” ou com “pibinho”. Acho que hoje em dia esse é um fenômeno mundial e os exemplos são tantos que ando suspeito de ter contraído algum tipo de paranóia transmitida pela água em New Haven. Afinal, em vários aspectos, nada mais parecido com Bush do que Obama no poder, vide a concentração de renda, a política externa, as int ervenções militares, o terrorismo de estado, Guantánamo e ...

Diário da Família - Samuel, meu filho

Não é questão de ter ou ter filhos, nem de ter orgulho ou vergonha deles, mas de saber ver e ouvir uma criança tentando chegar lá onde eles vivem, num mundo ao mesmo tempo menor e maior que o dos adultos. É um presente tentar ver e ouvir uma criança desde o mundo delas, algo que estaria acessível a qualquer um a princípio. Aí está o desenho que meu Samuel fez da última foto dele com o avô, horas antes da gente fazer uma atribulada viagem de volta a New Haven no fim de agosto do ano passado para comprovar. Ironia das ironias: meu filho, suave, silencioso, denso, tem sido um dos meus maiores consolos nesses dias negros de luto.

Juízes e dinossauros

O juiz espanhol Baltazar Garzón pisou nos calos de gente ainda muito poderosa e agora está pagando caro pela sua coragem. O resultado da sua luta foi seu duro enquadramento pelo supremo espanhol, bem no estilo do brasileiríssimo “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. Há aqueles que crêem no caráter exemplar da transição democrática na Espanha e no Brasil, pelo caráter pacífico e conciliador por das duas. Mas essa transição permitiu que uma parte considerável da Espanha franquista, motivada pelos motivos mais torpes, insistisse em fingir que franquistas e republicanos eram simplesmente dois lados de uma mesma moeda. É uma manobra retórica bastante comum em vários lugares do mundo nos dias de hoje: em nome de uma pretensa equanimidade jogam-se repressores fascistas e reprimidos republicanos numa vala comum apontando atrocidades dos dois lados e, a partir daí, prega-se uma anistia igual a ambas a partes ou simplesmente espera-se por um esquecimento amplo, geral e irrestrito. Ofereç...

Poesia Minha - Hino do Filho de Sétimo Dia

Hino do Filho de Sétimo Dia "¿Qué es la vida? Un frenesí. ¿Qué es la vida? Una ilusión, una sombra, una ficción, y el mayor bien es pequeño; que toda la vida es sueño, y los sueños, sueños son." – Pedro Calderón de la Barca, 'La vida es sueño' Saio cedo, não me importa o frio, nem me incomoda o medo. Sempre fui assim: esse homem esquisito que ninguém não podia entender. Desastrado improviso, obra má, de má argila, sou também irmão e seu semelhante. Meu pai já morreu; o que ele me deu e o que ele me tirou inteiram a fôrma exata da minha dor. Meu pai aviava, meticuloso e ardente, o elixir da longa morte que hei de tomar todo dia de manhã, daquela segunda-feira há sete dias passada até o resto da vida. Começou a temporada de caça! Chegou minha hora! Chegou minha vez! Frenesi ou ilusão, sombra ou ficção: todos os meus sonhos dançam sua morte com os pés no chão; são cinzas, cabem agora ...

Poesia Mexicana - Jaime Sabines 2

VII Madre generosa de todos los muertos, madre tierra, madre, vagina del frío, brazos de intemperie, regazo del viento, nido de la noche, madre de la muerte, recógelo, abrígalo, desnúdalo, tómalo, guárdalo, acábalo.

Poesia Mexicana - Jaime Sabines

[ilustração: cemitério em ouro preto] Este é o sexto fragmento de poema de Sabines sobre a morte do seu pai: Sobre la muerte del coronel Sabines VI Te enterramos ayer. Ayer te enterramos. Te echamos tierra ayer. Quedaste en la tierra ayer. Estás rodeado de tierra desde ayer. Arriba y abajo y a los lados por tus pies y por tu cabeza está la tierra desde ayer. Te metimos en la tierra, te tapamos con tierra ayer. Perteneces a la tierra desde ayer. Ayer te enterramos en la tierra, ayer.

Prosa minha - Um conto de fadas

“Aconteceu há muitos anos atrás num reino distante no vale de um rio antigo que hoje corre debaixo da terra. Lá vivia um príncipe-menino, que apesar de príncipe era mandado por todo mundo: pelos pais, pelos avós, pelos irmãos mais velhos e até pelo pessoal do palácio. O menino tomava puxão de orelha quando falava alto e palmatória quando falava baixo, bofetão quando falava demais e beliscão quando falava de menos, peteleco quando falava mentira e cocão quando dizia a verdade. Tinha uma lista comprida de coisas que ele não podia fazer: não podia comer nem demais nem de menos, não podia esquecer nem os tamancos no quintal nem o turbante no banheiro, não podia dormir deitado de barriga para baixo nem comer em pé encostado no guarda-corpo da varanda. A vida desse príncipe-menino era assim: só aborrecimento e contrariedade. No primeiro dia da primavera em que ia fazer 13 anos, o príncipe-menino encontrou um cartãozinho no chão do jardim do palácio. O cartãozinho cabia na palma da ...
Meu pai nunca gostou muito de música popular. Ele gostava mesmo de ópera e música erudita e chegava a implicar com Caetano Veloso e Gilberto Gil. Mas eu me lembro claramente a sessão conjunta em que a família se reunia em volta do toca-disco dele para ouvir o novo disco de Chico Buarque que ele tinha comprado. Assim foi até que a ditadura acabou e a trepidação de ouvir o que o Chico dizia diminuiu. Mas naquelas sessões outras lições que não tinham nada a ver com política eram aprendidas também.

Quantificando qualidade

A mídia adora rankings. Os melhores escritores, a melhor pizzaria, o melhor jogador de futebol, o rocambole mais comprido, o ator mais sexy, traseiro feminino mais volumoso: parece que tudo na nossa vida pode ser organizado em rankings, inclusive as universidades. Suspeito até que, se as universidades privadas no Brasil não fossem tão explicitamente desfavorecidas nos rankings da área, a imprensa nacional daria ainda mais destaque aos tais rankings. Nos EUA, de onde suponho vem essa voga dos rankings, o mais famoso e influente ranking de universidades é o da revista US News , que o publica anualmente desde os anos 70. As queixas por parte das universidades sobre os critérios desses rankings são antigos. Por exemplo, os diretores das escolas de medicina americanas se reuniram recentemente para oferecer mais um retrato tremendamente crítico da metodologia da US News como “a one-size-fits-all measure that is flawed by its use of inadequate metrics, low response rates, conflict-o...

Pedras da Nova Inglaterra, pedras do sertão

A educação pela pedra Uma educação pela pedra: por lições; para aprender da pedra, freqüentá-la; captar sua voz inenfática, impessoal (pela de dicção ela começa as aulas). A lição de moral, sua resistência fria ao que flui e a fluir, a ser maleada; a de economia, seu adensar-se compacta: lições de pedra (de fora para dentro, cartilha muda), para quem soletrá-la. Outra educação pela pedra: no Sertão (de dentro para fora, e pré-didática). No Sertão a pedra não sabe lecionar, e se lecionasse não ensinaria nada; lá não se aprende a pedra: lá a pedra, uma pedra de nascença, entranha a alma.