Sunday, October 19, 2014

Bloguinho paz e amor ou como não desfazer amigos nessa seca de outubro

Comecemos com uma imagem relaxante. Respire fundo e então coloque a calma, tranquila e pacífica canção da banda Cocteau Twins com o pianista Harold Budd para acabar de entrar no clima da mais profunda calma e tranquilidade. Só então leia os quinze pontos do bloguinho paz e amor.
Reflexões de Outono, com direito a foto
bonitinha e relaxante de folhas vermelhas no outono

1. Ajuda muito começar o debate sem considerar que todas as pessoas que votam em A ou B são idiotas completos, ignorantes manipulados ou fascistas enlouquecidos.
2. Tomem como exemplo as conversas que costumam ocorrer no Brasil sobre futebol: num meio de torcedores de A, você xinga B o quanto quiser; num encontro misto, onde estão torcedores de A e B, você segura onda, faz uma ironia, mas não pega pesado principalmente se sabe que o sujeito do outro lado é um fanático.
3. Está claro que, num universo de milhões e milhões de pessoas que votam num ou outro candidato ou mesmo nulo, não é difícil catar um monte de malucos raivosos que jurem de morte a todos que votam em um ou outro candidato. Isso pode até render filminhos de youtube com milhares de acessos e posts de FCBK com centenas de "curtidas" mas não quer quiser nada.
4. Defendo o direito de meus amigos e conhecidos de votarem em quem quiserem, de ter as opiniões mais estapafúrdias e divulgarem tais ideias, desde que não se trate daquilo que se chama calúnia e difamação. Aí neste caso, como a calúnia e difamação não se dirigem diretamente ao meu nome, eu finjo olimpicamente que não vi e não fico divulgando o negócio em nome de fomentar indignações de meia-tigela.
5. Eu vivi quatro anos de general Geisel, quatro de Figueiredo, seis de José Sarney, dois de Collor, dois de Itamar Franco e oito de FHC. Quase todos esses governos eu considerava péssimos e, na melhor das hipóteses, muito mais ruins que bons. Durante todos esses anos,  a partir de quando isso me foi permitido, votei no PT como melhor opção de uma esquerda aberta, democrática e pluralista, não alinhada com Moscou quando Moscou era Moscou mas socialista.
6. Diante dos limites claros dos governos do PT, não apenas no nível federal, estive aberto nas campanhas de 2006, 2010 e 2014 a ouvir atentamente o que os outros candidatos tinham para dizer e, quem sabe, dar-lhes o meu voto. Mas as questões que me incomodavam nos governos do PT, os seus limites a que me referi acima, nunca entraram nem mesmo vagamente nos discursos desses candidatos. Assim, por três vezes, frente a candidatos que só queriam seduzir os fundamentalistas religiosos e não me davam a menor bola, me conformei em votar no que me parecia o melhor possível naquele contexto.
7. Pouquíssimas vezes vi candidatos a qualquer cargo executivo no Brasil se referir de forma clara, objetiva e construtiva sobre os limites da política econômica que preserva cuidadosamente lucros extraordinários das instituições financeiras do país; nunca ouvi ninguém apontar os limites do desenvolvimentismo violento e destruidor que vigora na expansão da fronteira econômica no norte do país; e nunca ouvi nenhum desses candidatos falar em promover AGRESSIVAMENTE o respeito aos direitos humanos nas polícias militares e civis de todo o país, particularmente no tratamento de indígenas, negros, mulheres e LGBT.
8. Me parece que os marqueteiros das campanhas chegaram a conclusão de que esses assuntos não têm a menor relevância em termos de ganhos de votos de indecisos ou de consolidar votos ou sei lá que estratégia eles vendem aos candidatos em nome da vitória. Talvez eles tenham razão - afinal eu sou um sujeito que tem um blogue que se "às moscas". Tanto faz; essas são as questões que um dia me moverão a votar em outros candidatos para presidente.
9. Acho de uma incrível ingenuidade que alguém pense em avanços nesses campos ou em qualquer outro assunto que deveria interessar aos progressistas enquanto os governos desde a chamada redemocratização têm que lidar com um congresso fundamentalmente conservador e bastante fisiológico. Os tais "brasileiros de bem" podem eleger Jesus Cristo com Buda de vice e Maomé de chefe da casa-civil que nem a combate à corrupção nem qualquer avanço nas questões acima vão acontecer com o congresso como está.
10. Somos decididamente personalistas e aparentemente detestamos partidos políticos [o grito mais forte que ouvi nas manifestações do ano passado em Campinas era "Sem Partido!"]. Por isso gostamos de passar metade da campanha xingando os outros de ladrões, como se estivéssemos num concurso de Miss, comparando caráter e personalidade dos candidatos. Mas como teria sido os governos do FHC ou do Lula se o PSDB e o PT tivesse duzentos deputados no congresso [menos da maioria, vejam bem]. Teriam os dois sido "temperados" por ACM e Sarney e companhia? Teriam ido mais longe? Teriam sido piores? Não posso crer que algum governo possa ficar melhor porque precisa de um Calheiros, ex-ministro da justiça de FHC e presidente do senado no governo Lula.
11. Quando o PT tentou manobrar de outra forma no congresso, procurando costurar uma colcha de retalhos doida com um monte de nanicos, estourou o chamado Mensalão. Em 2005 elegeram [com os votos do PSDB] um grotesco Severino Albuquerque como que dizendo, "não vá por suas manguinhas de fora - enquadre-se".
12. Não acredito de jeito nenhum na resposta fácil de que, por exemplo, o eleitor brasileiro é conservador. Muito menos ignorante ou venal. Me parece uma maneira infantil de emburrar quando a eleição não deu o resultado que você queria que desse.
13. Acho que os meios de comunicação em geral têm prestado um desserviço ao país colocando em pauta um monte de cortinas de fumaça que ocultam os movimentos que realmente interessam. A internet disponibiliza um número de enorme de boas e péssimas fontes, e ser pautado pelo JN é uma barca furada, para não dizer certas revistas que eu não usaria nem no banheiro. Mas não acho que a internet seja solução de nada. Empresas pagam jornalistas treinados para fazer o seu trabalho e mantém um certo controle de qualidade que outros meios não têm. E têm muita gente se desinformando pela internet nessa campanha, embarcando em delírios absurdos que aparecem por aí.
14. Eu me espanto com gente que prevê o apocalipse com a vitória de um determinado candidato e diz "bem feito". Sofremos todos juntos - ou alguém acha realmente que a falta de água em São Paulo só vai afetar as privadas de Higienópolis? Além do mais a luta política não acaba depois das eleições. Palavra que quem viveu a maior parte da sua vida perdendo eleições e sendo governado por energúmenos do porte de Hélio Garcia e Newton Cardoso, Sarney e Collor.
15. Se não bastasse o congresso ter ficado pior, me chama a atenção mesmo a pouca presença das mulheres no parlamento. Cito a professora Flávia Biroli da UnB, cortesia de uma aluna minha que pesquisou sobre o assunto: 
 “Por um lado, o apagamento das marcas de gênero pode reforçar uma concepção universal de indivíduo que nega que as diferenciações existem socialmente e que as relações de poder são perpassados pelo gênero.  Por outro lado, porém, a presença enquanto mulheres, vinculada a estereótipos que remetem a maternidade e a sexualidade, para citar apenas dois exemplos, remete a representações convencionais e restritivas, naturalizadas nas reportagens.  A exigência difusa de que as mulheres se comportem enquanto homens quando se encontram em posições de maior destaque, ou para que a elas tenham acesso, convive com a exigência de que as mulheres se comportem enquanto mulheres.”
Essa relativa ausência das mulheres é coisa, como as que citei em 7 e 10, me interessa vivamente. Seriam meu norte não apenas para o voto para cargos executivos, mas principalmente para os legislativos. 

2 comments:

Daniel said...

Sempre gostei de política, mas estou extremamente desanimado com estas eleições.

Muito do meu desânimo é por causa do clima de torcida de futebol que as eleições estão gerando (com as pessoas tendo percepções seletivas e travando discussões que terminam com agressões verbais aos seus interlocutores).

Mas, mais do que tudo, o que me desanima é pensar que, passadas as eleições, provavelmente as pessoas vão deixar de prestar atenção nas notícias sobre o governo eleito - como se o que o governo faz fosse menos relevante do que a eleição do(a) meu(minha) candidato(a) favorito(a)

:-(

Paulo Moreira said...

Nenhuma cultura passa 50 anos completamente imersa em novela de TV e bobagens de rivalidade de futebol à toa, né? Agora, estão passando dos limites, Daniel. O pessoal não pode ficar tão doido assim só porque perdeu três eleições e talvez percam a quarta. Antes disso eu perdi 250 eleições e posso até ter ficado de mal humor, mas não saí por aí jurando os outros de morte. Por outro lado, quando vc vê o povo assim, não pode cutucar a onça com vara curta, né? E vc tem razão: passada a "final do campeonato", acabou-se o assunto.