Saturday, October 04, 2014

Sobre New Haven e sobre a média como figura retórica perversa

New York Times publicou um mapa “dos lugares mais difíceis para se morar” nos Estados Unidos. O título do mapa já me chama a atenção pela engenhosa inversão que desliza significados precisamente na abordagem ao tema tabu do país [a classe social]: aparentemente você “tem a vida dura” não porque é pobre mas porque vive num lugar em que as pessoas “têm a vida mais dura”. Basta mudar-se para a cidade certa e está tudo resolvido!

Algo ainda mais obscuro chama a atenção pela sua ausência nesse mapa. Um mapa assim, aparentemente tão preciso pelo acúmulo estrondoso de dados específicos sobre cada município [chamado county], pode ainda ocultar muito através dessa infame figura retórica favorita da estatística: aquilo que chamamos de “média”.
  
Mapas dos condados de Connecticut, incluindo New Haven

O condado [pelo menos em Connecticut] é uma instituição meio-fantasma do ponto de vista administrativo, assim como as chamadas regiões metropolitanas no Brasil. Cada município [o que é chamado aqui de city] tem seu prefeito, sua própria administração e corpo de funcionários públicos, sua própria força policial e suas próprias escolas primárias e secundárias financiadas principalmente pelos impostos pagos pela propriedade [mais ou menos correspondente ao nosso IPTU], além de fundos vindo do estado ou do governo federal.

Pelo mapa do New York Times não parece que as coisas estão tão mal assim aqui no condado de New Haven. Os números do contado como um todo [população total: 862.287 em 2013] são os seguintes:

Renda média [Median Income]: 62,234
Taxa de desemprego: 9.2%
Abaixo da linha da pobreza: 12%

Mas e se comparamos três cidades vizinhas pertencentes ao mesmo condado [New Haven, East Haven e Woodbridge]? A distância entre os centros de New Haven e Woodbridge é de 10 quilômetros percorridos de carro em 18 minutos e a distância entre os centros de New Haven e East Haven é de 7.5 quilômetros percorridos de carro em 13 minutos. Elas formam um tecido urbano contínuo, entre elas não há área verde ou um cinturão rural. Entre a última construção de New Haven e a primeira de East Haven ou Woodbridge geralmente há não mais que uma cerca viva. Porém os dados abaixo nos mostram como New Haven [a cidade], East Haven e Woodbridge são de fato muito diferentes:


New Haven
East Haven
Woodbridge
Renda média
US$36.530
US$63.136
US$123.947
Desemprego
7.2%
9.7%
4.2%
Abaixo da linha da pobreza
24.4%
7.8%
2.3%
Brancos
30,7%
82.6%
84.6%

Reportagem aqui
Hoje em dia os problemas mais notórios de discriminação racial acontecem em East Haven, onde a polícia sofreu intervenção federal por comprovadamente perseguir os latinos e depois tentar barrar qualquer punição significativa aos que praticaram abusos. Por outro lado, um habitante de Woodbridge [que trabalha na universidade que fica na cidade de New Haven] um dia me perguntou de maneira retórica porque "essa gente toda" que vive desempregada ou sub-empregada não se mudava da cidade de New Haven – um comentário que, tendo em vista o título do mapa do New York Times, entende-se melhor, mas que continuo achando absurdo. A cidade de New Haven era um centro industrial importante quando o nordeste dos Estados Unidos era, junto com a área entre Detroit e Chicago, o centro da indústria mais poderosa do planeta. Desse passado restaram dúzias de fábricas abandonadas pela cidade e uma população que tipicamente teve que trocar um emprego sindicalizado numa fábrica por um subemprego pessimamente remunerado numa lanchonete ou supermercado.
 
Fábrica da Winchester pelas lentes do blogue Snapshots for Sore Eyes

Foto minha

Foto minha


O ponto principal é que, frente a um sistema que segrega implacavelmente, fica difícil por muita fé em generalizações medidas por médias estatísticas. Tanto aqui como no Brasil. Aliás a prevalência da média como uma espécie de tropo retórico invisível me incomoda bastante, por exemplo, na educação e na medicina, onde a aplicação de médias parece acabar transformando a maioria das crianças e dos pacientes em "anomalias". 

Explicando a grosso modo: Se em cem crianças 45 aprendem uma determinada habilidade aos três anos de idade e outros 45 aos cinco, essas 90 crianças [em um grupo de 100] vão depois ser chamadas de "estranhas" ou "fora dos padrões", já que a média seria quatro anos e idade.   


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